
Traumatismo cranioencefálico: entenda como movimentos bruscos podem afetar o cérebro. Aceleração, desaceleração e rotação estão entre os fatores que podem provocar lesões cerebrais
O caso de uma jovem de 28 anos que perdeu parte dos movimentos após andar na montanha-russa Montezum, do Hopi Hari, em abril deste ano, chamou atenção para os possíveis efeitos de movimentos bruscos sobre o cérebro. Segundo informações divulgadas pela imprensa, Júlia Rimoli Bossoni teria embarcado consciente na atração e apresentado perda de consciência ao final do passeio. Posteriormente, recebeu diagnóstico de traumatismo cranioencefálico (TCE), com informações médicas divulgadas apontando um possível mecanismo de contragolpe. O episódio é investigado pelas autoridades.
De acordo com Camilla Estêvão de França, professora e coordenadora do curso de Biomedicina da Estácio, o desenvolvimento de uma lesão cerebral não depende necessariamente de uma pancada direta na cabeça. “Do ponto de vista biomecânico, uma lesão cerebral não depende necessariamente de uma pancada direta contra uma superfície. Movimentos muito rápidos de aceleração, desaceleração e, principalmente, rotação da cabeça podem provocar deslocamento e deformação do tecido cerebral dentro do crânio”, diz.
“O cérebro não fica completamente imóvel dentro da caixa craniana. Quando a cabeça sofre uma mudança brusca de movimento, o crânio pode mudar de velocidade ou direção enquanto o cérebro apresenta um movimento relativo em seu interior. Dependendo da intensidade, duração e direção dessas forças, podem ocorrer fenômenos de compressão, estiramento e cisalhamento dos tecidos e vasos sanguíneos. Esse mecanismo também ajuda a compreender o chamado trauma por contragolpe, quando a movimentação do cérebro dentro do crânio pode provocar uma lesão sem que exista necessariamente uma colisão externa evidente”, explica a especialista.
“Isso significa que toda montanha-russa oferece alto risco de lesão cerebral? Não. É importante não transformar um caso grave e incomum em uma conclusão de que as montanhas-russas, de maneira geral, provocam traumatismos cerebrais”, alerta Camilla.
A professora ressalta que fatores como magnitude, duração e direção da aceleração, componentes rotacionais, posição da cabeça e características individuais precisam ser considerados na avaliação do risco. Ela também destaca que estudos sobre o tema apresentam resultados que devem ser interpretados com cautela e que a ocorrência de eventos neurológicos em atrações desse tipo é descrita como rara.
Entre as possíveis consequências de um TCE estão sintomas compatíveis com concussão e, em situações mais graves, hemorragias intracranianas, edema cerebral e lesões vasculares. “Depois de uma pancada ou movimento brusco envolvendo a cabeça, alguns sintomas exigem atenção especial. Entre os sinais de alerta estão: perda de consciência; convulsão; vômitos repetidos; dor de cabeça intensa ou progressiva; confusão ou alteração importante do comportamento; dificuldade para falar; fraqueza ou perda de sensibilidade; dificuldade de coordenação; sonolência excessiva ou dificuldade para despertar; uma pupila maior que a outra; alterações visuais importantes”, informa a biomédica.
Diante desses sinais, a orientação é buscar atendimento médico de emergência e evitar movimentações desnecessárias, especialmente quando houver possibilidade de trauma cervical associado. A avaliação pode incluir exame neurológico e, conforme o quadro, exames de imagem. “A principal mensagem para o público é que segurança não deve ser avaliada apenas pela velocidade do brinquedo ou pelo número de ‘forças G’. O que interessa biologicamente é como essas forças são transmitidas ao corpo e à cabeça, por quanto tempo, em quais direções e como cada indivíduo responde a elas”, conclui.
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