Análise pericial reforça que morte da PM Gisele não condiz com suicídio

JORNAL ESTÂNCIA de ATIBAIA

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Caroline Daitx
Caroline Daitx

Por: Caroline Daitx

“A trajetória de baixo para cima em tiro encostado é um “alerta pericial” que aponta para possível intervenção de outra pessoa”

O laudo do Instituto Médico-Legal (IML) confirma que o disparo que matou a soldado Gisele Alves Santana foi encostado na região direita da cabeça e percorreu trajetória ascendente, causando extensa fratura craniana e destruição encefálica. Também aponta lesões de dedos e unha no pescoço e na mandíbula, típicas de esganadura, o que levou a investigação a abandonar a hipótese inicial de suicídio e tratá-la como morte suspeita. Perita esclarece pontos fundamentais do laudo que reforçam a inconsistência com o suicídio.

A reorientação da apuração também decorre do registro feito por um bombeiro socorrista ao chegar ao local: a cena foi fotografada antes do atendimento por apresentar aspectos “atípicos”, entre eles a arma “bem encaixada” na mão direita da vítima e sangue já coagulado. Segundo o depoimento do profissional, o arranjo observado não correspondia ao que costuma ver em suicídios com arma de fogo, fator que o levou a documentar a disposição dos elementos antes de qualquer intervenção.

À luz desses elementos, a médica especialista em Medicina Legal e Perícia Médica Caroline Daitx, avalia que a combinação tiro encostado + trajetória de baixo para cima exige interpretação cautelosa e eleva a suspeita de ação de terceiro. “A combinação trajetória ascendente (de baixo para cima) com um tiro a curta distância (encostado) é um achado que exige análise cuidadosa. Em casos de suicídio por arma de fogo na cabeça, um ângulo acentuadamente ascendente é atípico. Embora possível a depender da posição e da empunhadura, estatisticamente é um padrão mais sugestivo de disparo efetuado por outra pessoa. É um sinal de alerta pericial que aumenta a suspeita de homicídio e exige correlação rigorosa com os demais elementos da cena.”

Sobre as marcas cervicais, a perita considera o achado fortemente indicativo de agressão prévia. “Lesões no pescoço com o formato de dedos e escoriações em meia-lua são evidências extremamente significativas de luta e defesa. A presença de infiltrado hemorrágico demonstra que a lesão foi produzida em vida. Esses achados colocam em dúvida a narrativa de um suicídio simples e indicam provável ocorrência de homicídio, em que o disparo pode ter sido o evento final de uma agressão já em curso.” Esses elementos constam das descrições noticiadas do laudo.

A especialista também pondera sobre resíduo de disparo (GSR) e inconsistências temporais: “A ausência total de resíduos na mão que supostamente efetuou o disparo é altamente improvável em tiro de contato, embora não impossível. Em conjunto com o sangue completamente coagulado e demora no socorro, esses fatores enfraquecem a hipótese de suicídio e podem sugerir manipulação da cena.” Diretrizes técnicas no Brasil recomendam abandonar testes colorimétricos pouco específicos e adotar MEV-EDS como padrão-ouro para GSR, justamente para reduzir falsos negativos/positivos — contexto que deve ser considerado na reavaliação de resultados residuográficos.

Quanto à foto do socorrista, Daitx ressalta o valor indiciário e a limitação processual: “A arma firmemente ‘bem encaixada’ na mão é extremamente atípica após disparo fatal — o recuo e a flacidez costumam fazer a arma cair ou ficar frouxa. Isso é sugestivo de ‘staging’ (encenação). Contudo, sem cadeia de custódia, a fotografia é prova frágil e deve ser corroborada por evidências oficiais”, afirma.

Vale ressaltar que o relato do bombeiro sobre a posição da arma e o estado do local foi o gatilho para o redirecionamento da investigação.

Fonte: Caroline Daitx: médica especialista em medicina legal e perícia médica. Possui residência em Medicina Legal e Perícia Médica pela Universidade de São Paulo (USP). Atuou como médica concursada na Polícia Científica do Paraná e foi diretora científica da Associação dos Médicos Legistas do Paraná. Pós-graduada em gestão da qualidade e segurança do paciente. Atua como médica perita particular, promove cursos para médicos sobre medicina legal e perícia médica.  CEO do Centro Avançado de Estudos Periciais (CAEPE), Perícia Médica Popular e Medprotec. Autora do livro “Alma da Perícia”. Doutoranda do departamento de patologia forense da USP Ribeirão Preto.

Por: Caroline Daitx

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